sexta-feira, 14 de julho de 2017
sexta-feira, 2 de junho de 2017
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
Em finais do século XIX, já depois da abolição da escravatura, um tumbeiro clandestino naufraga ao largo do Brasil. Um grupo de náufragos atinge uma praia intermitente, que desaparece na maré cheia: um capataz, um escravo, um mísero criado, um padre, um estudante, uma fidalga e sua filha, um menino pretinho ainda a dar os primeiros passos... Todos são vencedores na morte, perdedores na vida. O mar, ao contrário dos seus antecedentes quotidianos, dá-lhes agora uma segunda oportunidade, duas vezes por noite, duas vezes por dia. Ao contrário do que pensam, não estão sós naquele cárcere, com os penhascos enquanto sentinelas, cercados de infinitos, entre o céu e o oceano. Trazem com eles todos os seus remorsos, todos os seus fantasmas. E mais difícil do que fazerem-se ao mar ou escalarem precipícios será ultrapassarem os preconceitos: os de raça, os de classe social, os de género, os de credo. Para sobreviverem, terão de se transformar num monstro funcional com muitos braços e muitas cabeças; serão tanto mais deuses de si próprios quanto mais se tornarem humanos e conseguirem um estado de graça a que poucos terão acesso: a capacidade de se colocarem na pele do outro.
domingo, 30 de outubro de 2016
A Vida não Cabe numa Teoria
A vida... e a gente põe-se a pensar em quantas maravilhosas teorias os filósofos arquitectaram na severidade das bibliotecas, em quantos belos poemas os poetas rimaram na pobreza das mansardas, ou em quantos fechados dogmas os teólogos não entenderam na solidão das celas. Nisto, ou então na conta do sapateiro, na degradação moral do século, ou na triste pequenez de tudo, a começar por nós.
Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem.
A vida é o que eu estou a ver: uma manhã majestosa e nua sobre estes montes cobertos de neve e de sol, uma manta de panasco onde uma ovelha acabou de parir um cordeiro, e duas crianças — um rapaz e uma rapariga — silenciosas, pasmadas, a olhar o milagre ainda a fumegar.
Miguel Torga, in "Diário (1941)"
Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem.
A vida é o que eu estou a ver: uma manhã majestosa e nua sobre estes montes cobertos de neve e de sol, uma manta de panasco onde uma ovelha acabou de parir um cordeiro, e duas crianças — um rapaz e uma rapariga — silenciosas, pasmadas, a olhar o milagre ainda a fumegar.
Miguel Torga, in "Diário (1941)"
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
sábado, 22 de outubro de 2016
OS AMIGOS DEIXARAM DE JANTAR LÁ EM CASA
Não deixámos de conviver com os amigos, deixámos de os
convidar para jantar lá em casa.
Os jantares sem hora para acabar, onde histórias antigas se
cruzavam com as novidades que cada um se dispunha a contar da sua própria vida,
passaram a realizar-se (quando acontecem) no restaurante da moda ou da memória.
Agora os momentos de intimidade entre amigos de longa data
acontecem ao telefone ou no chat do facebook. A casa passou a ser demasiado
íntima, até para os nossos principais amigos. Não, não é o trabalho que dá
preparar um jantar, nem a chatice da loiça no final para lavar ou a sala que
ficou pequena desde a última vez, em que os convidámos.
Preferimos este terreno neutro do restaurante, porque há um
mínimo de compostura que se mantém num sítio público e porque há assuntos que
convencionamos não abordar num sítio indicado para celebrar. Preferimos o
telefone ou a internet, porque tememos que nos escrutinem o olhar e
descodifiquem os sinais que a face transmite.
A amizade tem memória de elefante e curiosidade de mulher.
Conhece o significado do quadro pendurado na parede; repara nas cadeiras que já
faltam à volta da mesa de jantar e quer saber por que raio deixámos de fazer
sobremesa, ao sábado à noite.
Consciente ou inconscientemente, fomos mudando os hábitos à
amizade. Tornámo-la mais sofisticada, aparentemente mais íntima, na verdade,
gerida com telecomando.
Mais ou menos equipada, mais ou menos arrumada, a casa
passou a ser o local da nossa intimidade não revelável. O sítio onde as
emoções, os segredos, os sonhos e as preocupações passeiam à solta sem que
ninguém os incomode, sem que ninguém os questione.
E isso não nos atira às garras da solidão? Claro que sim!
Quando não atendem o telefone ou o cardápio do chat não é suficientemente
atrativo para as necessidades do momento, refugiámo-nos numa ficção qualquer,
frente ao ecrã, mas não nos passa sequer pela cabeça convidar um amigo para a
próxima noite de folga.
Gabriel Vilas Boas
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