quarta-feira, 29 de abril de 2015

Para não perder o fio à meada ...


... aqui fica uma sombra próxima ...

“ Com o correr dos anos, observei que a beleza, tal como a felicidade, é frequente. Não se passa um dia em que não estejamos, um instante, no paraíso. Lourdes Castro

segunda-feira, 6 de abril de 2015

"O que Distingue um Amigo Verdadeiro"

O que Distingue um Amigo Verdadeiro

Não se pode ter muitos amigos. Mesmo que se queira, mesmo que se conheçam pessoas de quem apetece ser amiga, não se pode ter muitos amigos. Ou melhor: nunca se pode ser bom amigo de muitas pessoas. Ou melhor: amigo. A preocupação da alma e a ocupação do espaço, o tempo que se pode passar e a atenção que se pode dar — todas estas coisas são finitas e têm de ser partilhadas. Não chegam para mais de um, dois, três, quatro, cinco amigos. É preciso saber partilhar o que temos com eles e não se pode dividir uma coisa já de si pequena (nós) por muitas pessoas. 

Os amigos, como acontece com os amantes, também têm de ser escolhidos. Pode custar-nos não ter tempo nem vida para se ser amigo de alguém de quem se gosta, mas esse é um dos custos da amizade. O que é bom sai caro. A tendência automática é para ter um máximo de amigos ou mesmo ser amigo de toda a gente. Trata-se de uma espécie de promiscuidade, para não dizer a pior. Não se pode ser amigo de todas as pessoas de que se gosta. Às vezes, para se ser amigo de alguém, chega a ser preciso ser-se inimigo de quem se gosta. 

Em Portugal, a amizade leva-se a sério e pratica-se bem. É uma coisa à qual se dedica tempo, nervosismo, exaltação. A amizade é vista, e é verdade, como o único sentimento indispensável. No entanto, existe uma mentalidade Speedy González, toda «Hey gringo, my friend», que vê em cada ser humano um «amigo». Todos conhecemos o género — é o «gajo porreiro», que se «dá bem com toda a gente». E o «amigalhaço». E tem, naturalmente, dezenas de amigos e de amigas, centenas de amiguinhos, camaradas, compinchas, cúmplices, correligionários, colegas e outras coisas começadas por c. 
Os amigalhaços são mais detestáveis que os piores inimigos. Os nossos inimigos, ao menos, não nos traem. Odeiam-nos lealmente. Mas um amigalhaço, que é amigo de muitos pares de inimigos e passa o tempo a tentar conciliar posições e personalidades irreconciliáveis, é sempre um traidor. Para mais, pífio e arrependido. Para se ser um bom amigo, têm de herdar-se, de coração inteiro, os amigos e os inimigos da outra pessoa. E fácil estar sempre do lado de quem se julga ter razão. O que distingue um amigo verdadeiro é ser capaz de estar ao nosso lado quando nós não temos razão. O amigalhaço, em contrapartida, é o modelo mais mole e vira-casacas da moderação. Diz: «Eu sou muito amigo dele, mas tenho de reconhecer que ele é um sacana.» Como se pode ser amigo de um sacana? Os amigos são, por definição, as melhores pessoas do mundo, as mais interessantes e as mais geniais. Os amigos não podem ser maus. A lealdade é a qualidade mais importante de uma amizade. E claro que é difícil ser inteiramente leal, mas tem de se ser. 

Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas' 

sábado, 25 de outubro de 2014


 "Valdez e o Pássaro Roubado" Técnica mista s/ tela 1998

domingo, 15 de junho de 2014

de volta ao ninho ...


... tão bom quanto partir ... é chegar :)

sábado, 19 de abril de 2014

domingo, 23 de março de 2014

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Anteontem morreu a nossa gata Marieta. É impossível não pensar nela. Vivia connosco desde 1998 e era pouco maior do que quando era pequenina. Era uma persa-tartaruga elegante, resmungona e selectiva. Quando a Marietagostava de uma pessoa ou de um gato (o Agostinho), gostava com o coração todo e não vacilava. Era uma grande amiga e uma grandiosa inimiga. Quando não gostava de uma pessoa (toda a gente) ou de um gato (todos os gatos, especialmente oCasimiro), toda ela se transformava num diabrete de snobismo, desprezo, nojo, violência e assanhamento. Nunca conheci um bicho mais meiguinho ou mais doido por festinhas e companhia. Nunca se ia embora. Ia-se derretendo. Virava-se e oferecia a fofura da barriguinha. Babava-se de tão contente. Era a imperatriz da sensualidade. Quando esteve com o primeiro cio, antes de ser esterilizada, a fúria sexual dela era avassaladora. Não sabia que coisa era a timidez, a vergonha ou o fazer-se cara. Era uma brincalhona séria: compreendia, como poucos gatos e nenhum cão, que brincar é um bem de primeira necessidade. Não se divertia quando brincava: empenhava-se e tentava vencer, não descansando enquanto não vencesse. Todos os dias muitos seres humanos perdem não apenas a companhia como a presença e a existência dum ser melhor do que o humano com uma personalidade menos apessoada e fingida do que a nossa. A Marieta era uma dessas pessoas. Que choramos: agora somos nós os que chamamos por ela. E ela não vem. MIGUEL ESTEVES CARDOSO PÚBLICO 30/01/2014