sexta-feira, 20 de março de 2020

Dez conselhos de uma monja de clausura para viver na “cela” de casa
Sabem de confinamento e reclusão mais do que ninguém: as carmelitas descalças de Cádiz oferecem os seus conselhos baseados na sua experiência de vida aos que, agora, se veem obrigados a ficar em casa.



1. Atitude de liberdade

O mais importante é a atitude com que se vive, a interpretação pessoal que se faz da situação, a consciência de que não se trata de uma derrota. Paradoxalmente, esta pode ser uma oportunidade para descobrir a maior e mais genuína liberdade: a liberdade interior que ninguém pode tirar, e que procede da própria pessoa. Num contexto em que as autoridades “obrigam” a estar em casa, a liberdade consiste na adesão voluntária, sabendo que é por um bem superior. É livre aquele que tem a capacidade de assumir a situação porque quer fazer o correto. Não se está encerrado em casa, antes, optou-se por nela permanecer “livremente”.



2. Paz onde a alma se amplia

Olhe para dentro de si próprio, o espaço mais amplo para a pessoa se expandir e ser feliz está no seu coração. Não são necessários espaços exteriores, mas andar folgadamente no próprio mundo. Dê asas à criatividade, escute as suas próprias inspirações, e encontre a beleza de que é capaz. Talvez ainda não tenha descoberto que da paz da alma brota vida… a vida é criação de mais vida, comunicação de alegria e amor. Quando se acostumar a viver em si, já não quererá sair.



3. Não se descuide, a paz requer trabalho

Exercite virtudes que requerem concentração e autoconhecimento, essas que normalmente se descuidam quando se está ocupado nos mil e um afazeres “externos”. De como se encara as próprias emoções e pensamentos, da gestão dos sentidos e paixões, depende se se vive no céu ou no inferno. Observe-se e domine-se, porque se se deixar levar pelo medo, pela tristeza ou pela apatia, dificilmente se sairá delas, já que não há muitas evasões. Exerça disciplina sobre o seu coração: quando algum pensamento não lhe fizer bem, rejeite-o. Procure inclinar-se para tudo aquilo que note que lhe dá paz e alegria... a harmonia tem de trabalhar-se.



4. Ame

A questão de fogo destes dias será a convivência. Perante a crise causada pela pandemia as pessoas ficam mais suscetíveis e, inclusive, irritáveis. É preciso ser-se muito paciente e usar muito o senso comum. Somos diferentes, cada qual tem uma sensibilidade distinta por múltiplas circunstâncias. Aceite e respeite as opiniões e sentimentos dos outros. É muito normal, quando se está em casa, a tendência para querer controlar tudo… Procure não o fazer, seria causa de muitos conflitos e frustrações. Não dê importância às diferenças, potencie as coisas que unem. O único terreno que realmente lhe pertence é a sua própria pessoa: os seus pensamentos, palavras e emoções; não controle, controle-se. A partir do amor extrairá compreensão e empatia, vontade de dar e agradecimento ao receber. Respeite, acolha a fragilidade, desdramatize, viva e deixe viver.



5. Não mate o tempo

Nada poderá criar-lhe uma sensação tão grande de vazio e fastio como passar o tempo inutilmente. É um inimigo gravíssimo que lhe poderá roubar a paz, e até colocá-la em depressão. Faça um plano para estes dias, e tente vivê-lo com disciplina. Descanso e ocupação não são antagónicos, aproveite para descansar realizando atividades que a relaxem ou que estimulem um ânimo positivo. Dê tempo nas coisas simples: que o grão-de-bico se torne tenro, que o assado demore a ficar cozinhado… temos tempo! Mesmo que um guisado lhe leve duas horas, desfrute de o fazer, e empenhe-se em que as coisas que faz, por simples que sejam, tenham valor e uma finalidade. Nada de perder tempo sem sentido, “matar o tempo” é matar a vida.



6. Alargue as suas fronteiras

Quantas vezes se deixou de fazer o que se devia por falta de tempo. Pois bem, agora temo-lo! Esse livro que lhe ofereceram há três anos e que não leu, aquele que ainda não devolveu porque ficou pela metade. Se gosta de música, procure novos artistas, descubra novos géneros. Apetece-lhe uma viagem? Pense num país exótico e aprenda sobre a sua cultura e tradições… temos internet também para isso. Se é pessoa de fé e oração, talvez não saiba o que rezar porque já esgotou tudo o que sabia. Por que não experimenta a liturgia das horas? Descarregue-a no seu telemóvel; procure os escritos de algum santo, seguramente vai encontrar muitas coisas que lhe encherão a alma de novas luzes. Não se conforme com o que conhece e sabe… agora que há oportunidade, abra-se a novidades que lhe acrescentem sabedoria e a encham de alegria.



7. Para as mais sensíveis

Nem todos dominam as emoções de igual maneira. Haverá pessoas para quem, pela sua psicologia, lhes custará muito mais este confinamento do que a outras. As emoções não só provêm do interior; também aquilo que se vê, escuta, toca, etc. influencia. Por isso, é preciso ser-se seletivo com aquilo que se recebe do exterior, para evitar entrar em círculos viciosos que envolvam em desespero ou façam perder o controlo. Evite-se, na medida do possível: conversas pessimistas, discussões, más caras, excesso de informação, filmes de terror ou intriga, desordem dentro de casa. Como não há muitas evasões que façam mudar de “chip”, tudo o que entra no cérebro nele permanecerá mais tempo do que o habitual; por isso, é preciso ter cuidado para não se ficar obcecado, ou permitir aninhar uma emotividade negativa no interior. O excesso de ecrãs também é mau porque estimula em demasia e o cérebro, e provoca mais nervosismo. Há que dormir bem, mas em excesso pode causar a sensação de fracasso ou derrota. Um remédio muito bom para canalizar a energia e relaxar é dançar. Ponha boa música e divirta-se a dançar. Nada como rir e divertir-se para reiniciar o sistema interior.



8. Não está isolada

É importante compreender que não há motivo para se sentir só, pois não se está. O amor e o carinho dos teus continua, mesmo que o contacto físico se tenha distanciado. Esta é uma oportunidade para viver a comunicação a um nível mais profundo, mais íntimo. Fale com quem está em casa com tranquilidade, sem pressas, escute-os até que terminem, deixe que o diálogo faça crescer a confiança e as confidências construam cumplicidade. Diga aquilo que nunca tem tempo de dizer, conte o que sempre quis contar, fale de tudo e de nada, mas com carinho, que é o que chega à alma e nela se aninha. Responda àquela mensagem de Natal que não agradeceu, a carta que a emocionou e à qual estava a preparar uma resposta, àquele “e-mail” de uma velha amizade. Procure palavras com beleza, tente dar expressão aos seus sentimentos mais nobres… Fale com o coração e crie laços muito mais profundos com os seus. Descobrirá que a distância não é ausência.



9. Dia de reflexão

Para não se angustiar, também é conveniente procurar momentos de silêncio e solidão. Na organização do tempo para estes dias, inclua espaços de “oxigenação” individual. Quantas pessoas já alguma vez disseram: «Como gostaria de me retirar alguns dias para um mosteiro». Pois bem, a ocasião está aqui, em casa. Habitualmente as pessoas cansam-se por causa da aceleração das suas horas, como se a rotina diária não desse tempo para assimilar o que se vive. Esperamos mudanças substanciais na sociedade, «isto não pode continuar assim». Agora temos esta oportunidade para nos metermos num casulo como a lagarta que se converte em borboleta. Reflita, pense, medite… Que posso mudar em mim para ser melhor depois destes dias?... A separação das coisas que normalmente temos entre mãos ajudará a ver se realmente se está a pôr o acento naquelas que importam, em vez daquelas que podem ser secundarizadas, quais são as insubstituíveis, etc. Um bom discernimento para melhorar fará com que estes dias sejam de muito proveito. Homens e mulheres novos depois desta crise.



10. Reze

Só a oração (que é o vínculo de amizade com Deus) pode sustentar a vida em todas as situações, especialmente nas adversas. Oração, que como diria Santa Teresa, «ainda que a diga à sobremesa, é o principal». Orar é abrir-se a esse “Outro” que pode sustentar-nos quando se precisa de ajuda; mas também quando se está bem, orar é sustentar outros que precisam. É a experiência mais universal do amor. Ore, fale com Deus, as horasa passarão sem que se dê conta: fale-lhe de tudo, Ele não se cansa de a escutar, desafogue-se com Ele quando necessitar, e, porque não?, deixe que também Ele se desafogue consigo, é o seu Pai, seu Irmão, seu Amigo. Exercite a sua fé e a sua confiança. Se deixou a relação com Deus no vestido da sua primeira comunhão, volte a experimentá-lo, agora há tempo e serenidade para conversar com Ele. Talvez não acredite porque nunca o experimentou. E se tentar?...




In Carmelitas Descalças de Cádiz
Trad.: Rui Jorge Martins
I

quarta-feira, 4 de março de 2020

“A memória desaparece, a memória se adapta, a memória se adequa ao que pensamos lembrar.” Joan Didion

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Cheira a Natal!!!


terça-feira, 11 de junho de 2019

Prenda da mana

Só quem já teve conctato directo com uma Peônia pode entender o magnetismo que esta flor causa nas pessoas. O perfume dela vira o seu mundo de cabeça para baixo - doce na medida exacta, suave na medida certa. Mais uma vez, a natureza mostra a sua perfeição em detalhes.

Cultivada em diversos países, a sua floração ocorre durante um período muito curto: do final da primavera até o inicio do verão. O facto delas terem um período de floração tão pequeno torna-as ainda mais cobiçadas.

Com as suas mais de 80 espécies e híbridos cultivados hoje em dia, elas podem ser encontradas nos mais variados tamanhos, cores e formatos. As peónias são nativas da Ásia, Sul da Europa e Oeste dos EUA e Canadá. 

Mas, para além da sua origem vasta, um detalhe importante e curioso muitas vezes passa despercebido: as suas propriedades medicinais. Requisitada amplamente na China e na Grécia antiga, a peónia foi baptizada em homenagem ao nome grego Peone, Deus da Medicina. Os seus poderes de cura estão relacionados, entre outros, com o sistema central nervoso e o cardiovascular. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2018


"A leitura é uma fonte inesgotável de prazer mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede." Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 12 de outubro de 2018


quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Ninguém no mundo é mais rico do que eu.

ANTÓNIO BOTTO

24

Ninguém no mundo é mais rico do que eu. Os grandes banqueiros poderão dispor de quantias fabulosas e de cofres das mil e uma noites, mas nenhum deles dispõe de um mundo tão formoso e tão variado como o que eu possuo quando vejo uma obra de arte. Trata-se de uma propriedade que não aparece registada na respectiva repartição de finanças, mas, que me pertence inteiramente porque os frutos da minha emoção artística são sagrados e invioláveis. Eu sou daqueles que defendem o direito de que o homem seja o senhor absoluto das suas próprias emoções. E no dia em que esse direito lhe for negado — o homem deixará de ser uma coisa animada e viva. Ah! Quantas vezes eu emigro dos contactos demasiado violentos dos meus semelhantes e vou habitar o mundo das minhas arquimilionárias ilusões. Sim; a vida é de quem a souber contemplar, de quem a sabe entender… Lembro-me de que um dia disse a um materialista ricaço: não há fortuna maior do que a de um pobre se esse pobre for poeta. Olhou-me assustado como se eu com essas poucas palavras lhe tivesse roubado o seu tesoiro e os seus haveres. E afinal, o que eu tenho, pode também ser de qualquer, apesar de que sinto que serei acima de todos o seu verdadeiro dono. Tal é, pelo menos, a minha ilusão; e uma ilusão sincera vale muitíssimo mais do que um direito legal.

António Botto, 'Cartas Que Me Foram Devolvidas', estudos críticos de José Régio e Fernando Pessoa, Lisboa, Ed. Paulo Guerra, 1932; 'Poesia de António Botto', edição, cronologia e introdução de Eduardo Pitta, revisão de Luis Manuel Gaspar, Lisboa, Assírio & Alvim, 2018 (a publicar).